O mal perfurante plantar é uma das poucas feridas graves do corpo humano capaz de evoluir por semanas, às vezes meses, sem causar nenhuma dor. Só em 2022, o SUS registrou 10.940 amputações de membros inferiores ligadas ao diabetes no Brasil, número que subiu para 11.326 em 2023, segundo dados do Ministério da Saúde analisados pela Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV, 2024). Boa parte dessas amputações começou exatamente assim: com uma ferida pequena, silenciosa, que ninguém percebeu a tempo.
Neste artigo você vai entender por que essa lesão consegue “se esconder” mesmo estando bem debaixo do pé, quais sinais aparecem antes da dor (porque eles existem, só que ninguém foi ensinado a procurá-los) e o que muda quando o cuidado começa cedo, ainda na fase em que dá para reverter tudo sem grandes traumas. Isso importa porque a diferença entre um curativo simples e uma amputação, na prática clínica, quase sempre é uma questão de semanas de atraso no diagnóstico.
Mal perfurante plantar é uma úlcera profunda que se forma na sola do pé, geralmente em pessoas com diabetes ou outras condições que afetam os nervos, e que costuma se desenvolver sem dor porque a sensibilidade da região já está comprometida antes mesmo de a ferida aparecer.
O que é o mal perfurante plantar e por que ele se forma
Na prática do consultório, o mal perfurante plantar quase sempre aparece do mesmo jeito: uma calosidade que já existia há meses, num ponto de apoio do pé, começa a ficar mais espessa. Por baixo dela, sem que ninguém veja, o tecido vai se rompendo. Quando o calo finalmente “abre”, já existe uma cavidade embaixo, às vezes profunda o suficiente para expor tendão ou osso.
Esse processo tem nome técnico: neuropatia diabética associada a alteração biomecânica do pé. A diretriz de 2023 da SBACV descreve exatamente essa sequência, o calo se forma nos pontos de maior pressão, evolui para úlcera e pode infeccionar se não for tratado a tempo. Ou seja, a ferida não surge do nada: ela é o resultado final de meses de pressão repetida sobre um ponto que o corpo já não sente mais direito.
Os fatores que mais contribuem para esse quadro incluem:
- Diabetes descontrolado por longo período, principal causa da neuropatia diabética no Brasil
- Deformidades nos pés, como dedos em martelo ou queda do arco plantar
- Calçados inadequados, que concentram pressão sempre no mesmo ponto
- Calosidades antigas nunca removidas corretamente
- Doença arterial periférica associada, que dificulta ainda mais a cicatrização

Os pontos de maior pressão plantar são onde o mal perfurante plantar costuma se formar primeiro.
Vale reforçar: nem toda ferida no pé diabético é um mal perfurante plantar. Existem feridas causadas por corte, queimadura ou atrito. A diferença é que o mal perfurante plantar nasce de dentro para fora, por pressão repetida sobre um nervo que já não avisa mais quando algo está errado.
Por que o mal perfurante plantar quase nunca dói
Essa é a pergunta que mais ouço no dia a dia: “mas como assim, dói tanto e a pessoa não sentiu nada?” A resposta está na própria neuropatia diabética. Ela não afeta só o movimento dos pés, ela desliga, aos poucos, os fios que levam a sensação de dor, calor e pressão até o cérebro.
A Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes de 2025 traz um dado que costuma surpreender até profissionais de saúde: a prevalência de neuropatia periférica diabética na população geral chega a 49%, e pode atingir até 90% em pacientes com diabetes que aguardam transplante renal. Ou seja, perder a sensibilidade nos pés não é exceção entre diabéticos, é praticamente regra em algum grau, e boa parte das pessoas nem percebe que já perdeu.
Na prática, isso significa que alguém pode pisar em uma pedrinha, andar descalço em piso quente ou usar um sapato apertado por horas sem sentir absolutamente nada de anormal. O corpo continua registrando o dano, só que o aviso de dor não chega. É por isso que, clinicamente, chamamos essa combinação de “a tempestade perfeita”: lesão acontecendo, sistema de alarme desligado.
Além da perda de dor, outros sinais de alerta da neuropatia costumam aparecer antes da ferida:
- Formigamento ou sensação de “meia grossa” nos pés, mesmo descalço
- Pele muito seca, com rachaduras, por redução da sudorese local
- Dificuldade de sentir diferença entre água quente e fria no banho
- Sensação de estar pisando em algodão ou em superfície irregular

O teste com monofilamento é simples, rápido e indolor, e ajuda a identificar perda de sensibilidade antes de qualquer ferida aparecer.
Os sinais que aparecem antes da dor: como identificar o mal perfurante plantar cedo
O que observar na hora do banho
Como a dor não avisa, a inspeção visual vira a principal ferramenta de prevenção. Vale separar dois minutos por dia, de preferência na hora do banho, para olhar a sola dos pés com atenção, inclusive usando um espelho se for difícil enxergar embaixo do pé. Qualquer mancha vermelha, calo espesso, área mais quente que o resto do pé ou pequena abertura na pele merece avaliação.
Sinais que indicam risco elevado
Alguns achados pedem atenção redobrada e avaliação profissional em poucos dias, não em poucas semanas: calo com ponto escuro no centro (sinal de sangramento por baixo), secreção com odor, área que muda de cor rapidamente ou inchaço que não existia antes. Nenhum desses sinais costuma vir acompanhado de dor proporcional ao tamanho do problema, e é exatamente isso que engana tanta gente.
Pé diabético, neuropatia e o risco escondido de cada ferida
Ferida no pé que não cicatriza: quando isso é grave
Uma ferida no pé que não sara em duas ou três semanas, mesmo pequena, já é motivo para buscar avaliação especializada. Em pé diabético, a circulação sanguínea costuma estar reduzida, o que atrasa a cicatrização natural. Some isso à ausência de dor e você tem o cenário perfeito para uma ferida crescer em silêncio por meses.
Por que a amputação continua sendo um risco real
Os números brasileiros são duros, mas precisam ser ditos. Segundo levantamento da Agência Brasil (2023) baseado em dados da SBACV, cerca de 30% das pessoas amputadas por complicações do diabetes morrem no primeiro ano após o procedimento, percentual que sobe para 50% em três anos e 70% em cinco anos. A amputação não é o fim do problema, muitas vezes é o início de outros riscos sérios de saúde.
Por outro lado, a mesma diretriz da SBACV de 2023 é clara ao afirmar que a identificação precoce da doença arterial periférica em pacientes com úlcera plantar reduz o risco de infecção grave e de amputação. Ou seja, existe uma janela real de prevenção, e ela começa muito antes da ferida ficar grande.
Como o cuidado prático faz diferença: um caso comum de consultório
Um padrão que se repete bastante na rotina clínica: paciente diabético, calo antigo na base do dedão, “sempre foi assim, nunca doeu”. Na avaliação, o teste de sensibilidade com monofilamento (aquele fiozinho de nylon usado para checar se o pé ainda sente toque leve) já mostra perda parcial na região. Por baixo do calo, uma pequena área amolecida indica início de ulceração, ainda sem abertura visível na pele.

Nesses casos, o desbridamento correto do calo (remoção da pele espessada, feita por profissional habilitado, nunca em casa com lâmina ou alicate comum), a redistribuição de peso com palmilha adequada e o acompanhamento mensal costumam evitar que aquele ponto vire uma úlcera aberta. O detalhe que faz diferença aqui não é nenhuma técnica sofisticada, é a frequência do acompanhamento. Pé que já perdeu sensibilidade precisa de olhos externos regulares, porque ele mesmo não vai mais avisar quando algo piora.
O papel da podologia clínica e da acupuntura a laser na prevenção do mal perfurante plantar
O cuidado podológico regular é a primeira linha de defesa contra o mal perfurante plantar: remoção correta de calosidades, corte adequado das unhas para evitar novas portas de entrada de infecção e orientação sobre calçados. Isso, aliado ao controle glicêmico acompanhado pelo endocrinologista, já reduz bastante o risco.
A acupuntura a laser entra como recurso complementar em alguns quadros de neuropatia diabética, especialmente quando o objetivo é estimular a circulação local e reduzir sintomas como formigamento e dor neuropática, sem o uso de agulhas tradicionais, o que costuma ser bem recebido por quem tem receio de picadas. Ela não substitui o controle clínico do diabetes, mas pode compor um plano de cuidado mais completo junto com a podologia.
Perguntas frequentes sobre mal perfurante plantar
Mal perfurante plantar tem cura?
Tem tratamento e, na maioria dos casos identificados cedo, cicatrização completa. O que não existe é reversão total da neuropatia que causou a perda de sensibilidade, por isso o cuidado precisa continuar mesmo depois que a ferida fecha, para evitar que outra apareça no mesmo pé.
Toda calosidade em diabético vira mal perfurante plantar?
Não, mas toda calosidade em pé diabético merece atenção. Nem todo calo evolui para úlcera, porém como a dor não avisa quando isso está acontecendo, o ideal é que calosidades em pessoas diabéticas sejam sempre removidas por um profissional, nunca em casa.
Preciso amputar se tiver essa ferida?
Na grande maioria dos casos tratados a tempo, não. A amputação costuma acontecer quando a infecção já está avançada ou quando existe comprometimento arterial grave associado. Quanto antes a ferida for avaliada, menor o risco de chegar a esse ponto.
Como sei se já estou perdendo sensibilidade nos pés?
O sinal mais comum é dificuldade de sentir diferenças de temperatura no banho ou não perceber pequenos objetos dentro do sapato. O teste com monofilamento, feito em consulta, confirma o grau de perda de forma simples e rápida, sem dor.
A acupuntura a laser dói ou tem contraindicação para diabéticos?
Não, o laser não usa agulhas nem perfura a pele, o que reduz bastante o desconforto em comparação com a acupuntura tradicional. Ela costuma ser bem tolerada por pacientes diabéticos, mas a indicação sempre depende de avaliação individual antes de iniciar as sessões.
Com que frequência um diabético deve ir ao podólogo?
Como rotina geral, a avaliação a cada 30 a 60 dias costuma ser suficiente para quem ainda não tem alteração de sensibilidade. Quem já apresenta neuropatia diagnosticada ou histórico de ferida costuma precisar de acompanhamento mais frequente, definido caso a caso.
O primeiro passo para parar de correr esse risco em silêncio
O mal perfurante plantar é perigoso justamente por não doer: a ferida cresce escondida, e o alarme natural do corpo simplesmente não dispara. Observar os pés diariamente, tratar calosidades com profissional e não esperar a dor aparecer são as atitudes que realmente mudam esse cenário. Quanto mais cedo o cuidado começa, menor a chance de qualquer complicação séria.
Se você notou algum calo, mancha ou área diferente na sola do pé, ou simplesmente nunca fez uma avaliação completa de sensibilidade, agende uma avaliação podológica gratuita na Acupunfeet, localizada no Jardim Santana, Campinas. Um exame simples hoje pode evitar meses de tratamento amanhã. Cuidar dos pés de quem convive com diabetes é, todos os dias, a parte mais silenciosa e mais importante do trabalho.
Este conteúdo tem caráter puramente informativo e educacional. Não substitui, em hipótese alguma, a avaliação e o diagnóstico de um profissional de saúde.








